Este Blogue não tem como finalidade apresentar um trabalho científico sobre o Judaísmo, a cabala ou o Quinto Império. Destina-se unicamente a servir de suporte ao entendimento generalizado das principais figuras deste romance e aos locais onde o mesmo se desenvolve.



terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A barba de três dias

 
    Acreditem, eles e elas, é o que está dar. Se fosse um gajo bem parecido, mais novo, dois traços de lábia, rendia-me à barba de três dias. Pelo menos tinha emprego e percurso político garantidos.     
     Mesmo não contando com os votos deles, teria sempre uma almofada garantida nos votos delas. Pelas minhas investigações, descobri inclusive que  os homens voltaram claramente a render-se à barba. Não há necessidade de a deixar crescer durante meses a fio, criando aquela espécie de turfa farfalhuda, onde se acumulavam migalhas, perdigotos e outros pingatos de sítio ainda mais repugnante. Eu, se fosse mulher, perante uma coisa grotesca daquelas, também sentiria repulsa, para não dizer nojo.
      O que fazer então para apresentar uma barba de três dias? Ora bem, há que deixá-la crescer… durante 3 dias! Esta barba, ainda em fase de crescimento, mede 3 a 4 milímetros. No entanto, para um estilo subtilmente desmazelado, mas não menos estiloso, convém cuidar da mesma.  Ou seja, a barba de três dias é assim uma espécie de barba de puto, que nem tem mato para cortar em condições, mas ao mesmo tempo já não precisa de se levantar de madrugada para assobiar ao pelo meloso nem tão pouco de frequentar o galinheiro da vizinha às escondidas.
     Com esta barba, soube ainda que se realça, particularmente, os rostos angulares e afina os rostos redondos. Para a acertar como ditam as regras, é importante que se utilize um aparador, que permita várias regulações de comprimento, isto é, com pente ajustável. Ajuste o pente em função do comprimento que desejar obter, pois há para todos os gostos! Desde a barba mais curtinha à barba mais comprida.
     Para se conseguir uma barba de três dias apresentável, estilo ministeriável e comentador de TV, deixe-a crescer durante três dias e apare-a. Pegue no seu aparador e passe-o pela barba em sentido contrário ao crescimento do pelo. Assim, os seus pelos ficarão com um tamanho uniforme por toda a parte inferior do rosto. O ministro e o comentador são aqueles que rumam sempre contra a maré, e é fundamental que a barba de três dias transmita essa postura de pelo irreverente e eriçado. Um gajo de barba de três dias tem de dar a ideia que é um gajo teso, durão, caso contrário, como poderiam elas suspirar face a uma barba de três dias?
      Mas... pois, mas... se tiver umas coisitas mais para o mole, por exemplo uma pele sensível, a barba de três dias também é indicada. Ao não fazer a barba todos os dias, também se poupa o coiro, acabando por não o deixar tão irritado e, por conseguinte, com menos vermelhidões. Também aqui se podem recolher grandes proveitos, nomeadamente no campo das vermelhidões faciais, que das outras, Deus lhas perdoe, que não desejo o mal a ninguém.
    Tinha muito mais a dizer, por exemplo falar da importância de limpar regularmente o aparador para eliminar as bactérias que se possam acumular. O aparador, também ele, requer manutenção, mas desconfio que já ultrapassei o número limite de palavras e não sei se já atingi os dez erros ortográficos. 
     
     


domingo, 12 de maio de 2013

A badalhoca

       Desculpem-me o calão e forma despudorada como escolhi o tema, na véspera de 13 de maio, para falar da mulher e da mãe.
      Mas não podia deixar passar em falso o comentário que recentemente ouvi a um fulano que, ostensivamente, em plena via pública, atendia o telemóvel, de modo a que todos o ouvissem, os que tivessem, ou não, ouvidos de cínico, o que não é o meu caso.
        "Tá, ó minha badalhoca preferida!!!!" ...
        Na suposta pocilga em que o tipo vive, e ao que parecia insinuar, qual porco de cobrição, aquela seria a que chafurdava mais.
          E a gente fica-se a olhar para isto e pergunta se é só calão ou se é mais alguma coisa. Pensei em várias hipóteses e cá vão algumas delas.
         Em primeiro lugar será isto o resultado direto da dita emancipação feminina, em que a fada do lar, a dona de casa, finalmente, pelo desmazelo incondicional, dá lugar à badalhoca?
         Poder-se-á retirar daqui alguma leitura teológica, associada à pureza feminina, simbolizada na imagem de Maria. A religião, o dito ópio do povo, idolatrou determinados dogmas associados ao feminino para que, na realidade, pudesse colocar a mulher num plano secundário. A badalhoca, neste contexto de reação à pureza, assume um valor e importância que fazem deste cumprimento do mancebo um nobre elogio à mulher.
      Também coloquei a hipótese do tipo ser poeta e ter lido recentemente as poesias eróticas do Bocage. E que andasse a treinar motes de poesia de salão. Na falta de outros conhecimentos, sempre seria melhor do que nada.
      Em qualquer dos casos, a minha conclusão era sempre a mesma, mas será que o dito javardo teria mãe ou irmãs?
      A suposta "miss piggy" não se incomoda com o epíteto?
      Tenho uma certeza: os filhos de tais mães dirão sempre que serão as melhores mães do mundo, mas eu não trocaria.
 
        

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Fernanda Serrano, Também há dias felizes.

    Saúda-se a chegada de um livro da mais recente imperatriz da Língua Portuguesa, a atriz Fernanda Serrano.  Assim o entende o Professor Marcelo, ilustre comentador da vida nacional.
    Ontem, nos habituais comentários do Professor Marcelo, a escritora Fernanda Serrano, com o título: "Também há dias felizes", tornou-se na estrela da noite, no montinho dos livros com que o ilustre professor e político brinda o pobre povo com sugestões de leitura mais ou menos edificantes.
    Na salgalhada do costume, que nisto de televisões é como um hipermercado, vai de tudo a preço de saldo, os olhos do discernimento de sua eminência deixaram-se descair, numa meteorítica passagem, por um volume das Obras Completas dum tal Padre António Vieira, fulano mais ou menos conhecido por ser referido em discursos patrioteiros de aquém e além atlântico. 
    Nesta linha de enfado, aprouve ainda ao Professor dizer que a coisa ia ter muito volume pela frente; esperando eu, sinceramente, que lhe não cheguem à mão, pelo menos ao preço da chuva, não vá o homem lembrar-se de ler aquilo e arranjar matéria que diga alguma coisinha de realmente novo à gente Lusitana.  
     AH, esquecia-me, pois, de dar os parabéns à Fernanda, que, como é de supor, ainda não tive tempo para ler, nem tão pouco sei se alguma vez terei oportunidade. É que, na verdade, tenho andado a ler muita literatura de segunda, pelo menos assim parece no entender de muita gente que deveria ter mais algum cuidado com a forma tendenciosa e descaradamente de capelinha com que apresenta determinadas coisas e coisinhas.
    Nota, esta crónica nada tem de pessoal contra a atriz e muito menos pretende de algum modo beliscar o conteúdo do livro pelos assuntos pessoais e delicados que envolve. No entanto, a partir do momento em que determinadas figuras públicas expõem as suas vidas privadas e pretendem que essas mesmas vidas se tornem em acontecimentos nacionais, serão inevitáveis os comentários daqueles que se sentem lesados pela forma como são espoliados do direito à informação clara, credível e honesta.

domingo, 7 de abril de 2013

O Zé-Faz-Tudo

Acalmadas as poeiras da intolerância e das limitações fronteiriças mentais, sem poiso no Público e outros arautos dos sempre-os-mesmos, aqui no meu blogue, ao alcance de alguns, ao mesmo de ninguém, aqui fica para memória futura o que penso da figura tipicamente portuguesa do Zé-Faz-Tudo.


O Zé-Faz-Tudo, para quem o não conhece, é um fulano que, tendo dois dedinhos de habilidade, faz tudo. Manobra o martelo, desenrosca qualquer porca, troca fios e, imagine-se, chega mesmo a opinar sobre qualquer matéria que lhe ocorre, como sendo o mais conhecido e autorizado perito.

Diga-se, em abono da verdade, que há um Zé-Faz-Tudo em muitos de nós; eu mesmo, em arranjos domésticos, sofro dos mesmos pecadilhos do Zé-Faz-Tudo. Neste caso, o prejuízo sai-me da carteira, para não falar da vergonha de me tornar em técnico falhado, chicho esperto ou mesmo sapateiro a tocar rabecão.

Mas não se pense que o fenómeno do Zé-Faz-Tudo é coisa exclusiva de trolha, carpinteiro ou picheleiro, nada disso; o Zé-Faz-Tudo aparece-nos frequentemente em casa através da TV, da rádio e dos jornais. Encontra-se o Zé-Faz-Tudo em comentários, em debates e regularmente em diversas crónicas, nomeadamente dos semanários. Quem não está, neste momento, a ver um Zé-Faz-Tudo de estimação?

Recentemente adotei um, um daqueles que, por ter talento, ter um curso de direito, está em condições de opinar sobre tudo. No caso concreto, o dita eminência parda, dá-se ao luxo de argumentar balofamente sobre um problema que pertence ao campo específico da Linguística, mas duvida-se que sobre esta ciência tenha alguma vez lido tão pouco um opúsculo.

Apesar disso, a lábia sai-lhe, tanto pelo elogio excessivamente desmerecido, como pela crítica maledicente, a rondar uma atitude que, manda o respeito que merece enquanto autor, me prive de usar publicamente.

domingo, 10 de março de 2013

Nacionalidade portuguesa para os judeus sefarditas

     Ciclicamente, volta a falar-se deste projeto de lei. Dizem que finalmente vai ser levado à Assembleia da República. Pelo que vejo, por iniciativa de partidos ideologicamente ligados à direita, o que me leva a desconfiar da esquerda.
   E no meio deste ping-pong esquerda / direita, dá-me vontade de rir como, de forma tão descarada, se passa uma esponja por cima dum largo relambório de ataque descarado à Igreja, como única e simples depositária duma injustiça cometida há séculos contra este povo e que teve na Inquisição e no Tribunal do Santo Ofício o seu lado mais visível e repugnante.
     Aproveitem a boleia das pedofilias, das homossexualidades, das negociatas do Vaticano e metam também no rol esta dos judeus sefarditas espoliados. Afinal não somos nós todos um povo de espoliados?
   É que, se esta lei não passar, apetece dizer aos partidários das urnas de cristal que, se não papam velhinhos, ainda não chegaram à era do digital, continuando no tempo da cassete magnética. Efetivamente, o caso dos judeus sefarditas está muito para além das guerras entre israelitas e palestinianos, diz-nos diretamente respeito e é duma enorme hipocrisia continuar a destilar ódio contra antepassados que nos são comuns, desprezando ao mesmo tempo as vítimas de quem também nos corre sangue nas veias. 

sexta-feira, 1 de março de 2013

No reino da inveja e da maldicência

     A propósito do anúncio da publicação da obra integral do Padre António Vieira, ao que se disse, patrocinada através de um subsídio da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, correu logo pelo ciberespaço e até chegou, imagine-se, ao Eixo do Mal, que tudo isto seria um esbanjar de recursos, pois o trabalho estaria feito aquando da Expo 98, naquele tempo do Eldorado, em que as montanhas pariram ratos, e alguns deles, ao que se vê, nem saíram do ninho, pois, até à data, ainda ninguém me respondeu, refiro-me aqueles que, rapidamente colocaram comentários a aludir a este facto na notícia do jornal "O Público" https://www.facebook.com/Publico/posts/534293093277204 e no qual respondi da seguinte maneira:
    "Diz-se aqui que a obra está pronta em CD ROM, digam então o que está lá e comecem, por exemplo, pela epistolografia. Estarão atualizadas as cartas censuradas na primeira edição, nomeadamente as do Duque de cadaval e D. Teodósio. Foram verificadas todas as cartas dirigidas a Duarte Ribeiro de Macedo pelos originais? Têm atualizadas as cartas ao Marquês de Nisa, algumas delas também censuradas? Têm traduzidas as cartas dirigidas aos superiores da Companhia em Latim? Têm reunidas as cartas dispersas que entretanto foram sendo publicadas por diferentes publicações? Descobriram alguma correspondência inédita, nomeadamente em Cadaval, Torre do Tombo e Archivio di Stato de Florença? Verificaram pelos manuscritos autógrafos a correspondência com o Marquês de Gouveia da Torre do Tombo? Verificaram toda a restante correspondência através dos manuscritos apócrifos, nomeadamente os da Biblioteca da Academia das Ciências? Etc Etc. É que este trabalho tem-me ocupado os tempos livres desde 2001. É que se alguém fez isto tudo para o tal CD foi trabalho desnecessário, mas não me consta, pois fui eu sempre a pagar os microfilmes de manuscritos que nunca ninguém tinha pedido. Se houve dinheiros para o tal CD e este trabalho, só na epistolografia, não foi feito, então foi uma burla, tenho em minha posse faturas pedidas em nome do "Projeto Vieira" e teria direito a exigir parte desses subsídios. Repito, quem levantou estas suspeitas, se tem provas para as perguntas que aqui coloco, responda, pois pode ser que ainda se possam aproveitar eventuais pesquisas, se não têm, calem-se com a má língua, para não dizer outra coisa. De tudo que disse, se houver dúvidas, é só dizer, que rapidamente disponibilizo aqui cópias de todo o material que tenho de Vieira em manuscritos, e posso dizer que tenho mais de 90% de toda a sua epistolografia. Com exceção dos sermões, que são 15 volumes, para a restante obra, (10 volumes) a situação de recolha das fontes está a processar-se de forma idêntica. De reimpressões estamos fartos por altura dos centenários, são rápidas, dão pouco trabalho e dão milhões, normalmente dirigidos aos do costume.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A alegoria do devedor

Esta alegoria foi retirada, à letra, do sermão XIII do Rosário, do Padre António Vieira

    "Talentos antigamente significavam certa soma de dinheiro, grande; hoje os talentos significam préstimos; e posto que se lhes mudou a significação, não se variou o significado. Quem tem muito dinheiro, por mais inepto que seja, tem talentos, e préstimo para tudo; quem o não tem, por mais talentos que tenha, não presta para nada.
      E que fez o pobre criado vendo-se tomado, e convencido em tanto excesso de dívidas, e não só impossibilitado de cabedal para as satisfazer, mas condenado já pelo Rei a ser vendido, e passar da largueza, e senhorio do estado em que tanto luzia com o alheio, à miserável servidão de escravo?
      Convencido, e condenado o devedor, lançou-se aos pés do Rei, e disse-lhe estas breves palavras: Patientiam habe in me, et omnia reddam tibi [Mt 18, 26]; tende, Senhor, paciência para comigo, e eu vos pagarei tudo o que devo. Isto é letra por letra o que soam as palavras, nas quais se oculta um mistério, que descoberto é altíssimo. Parece que este homem havia de pedir misericórdia ao Rei, e não paciência; pois porque não pede misericórdia, nem perdão do que devia, senão a paciência do Rei somente, e debaixo dessa paciência lhe promete pagar toda a dívida: Patientiam habe in me, et omnia reddam tibi? Torno a dizer que falou altissimamente. Porque o Rei era Deus, o qual é incapaz de paciência, porque não pode padecer; e uma vez que Deus chegasse a padecer, e ter paciência, logo o servo tinha cabedal para lhe pagar toda a dívida, e muito mais." Sermão XIII do Rosário. Nota para a alegoria: O Rei / Deus é a Alemanha.

domingo, 11 de novembro de 2012

Prémio Leya 2012

Está aberta a casa de apostas para o prémio Leya 2012, que será anunciado em 14 de novembro de 2012.
As opções são várias:
- Manutenção da crise e divisão do prémio por dois anos, o que implica à casa dispor unicamente de 50000 euros por ano.
Vencedor Angolano, é o único país grande que falta, quem de dera que fosse um já aqui.
Vencedor português, e gente começou tarde e ganha 2-1. Os desempregados têm aumentado, mas já era hora duma estrelinha do continente brilhar.
O tuga do resto do mundo; há tugas espalhados por todo o mundo e alguns também devem escrever umas coisitas, mesmo que fosse desconhecido, ainda ficava bem na fotografia.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O prémio D. Dinis.

        Para não deixar este blog entrar em avançado processo de extinção, evitar a TSU, com a qual só me saem rimas pouco convenientes, e para falar do nosso primeiro, lembrei-me agora desta polémica entre a escritora Maria Teresa Horta e a recusa de receber das mãos, ao que parece sarnentas, de Passos Coelho o prémio D. Dinis.
       Por vários lados me encontro relativamente ligado ao acontecimento, o prémio sai da minha terra, até conheço bem o local, até de vez em quando escrevinho umas coisas e só me resta, onde chega a distinta lata, de também sonhar com uma coisa daquelas. Mas a verdade é que, Casa de Mateus, só se for de compota e, mesmo essa será feita lá para o Oeste ou coisa parecida que forneça o LIDL; quanto ao vinho, já nem se fala, desde que a Sogrape lá fechou a tasca.
      Concluindo, queiramos ou não, o prémio de Mateus, pelo cardápio dos agraciados, é assim uma espécie de 10 de junho e fica mal não receber o prémio daqueles que, mal ou bem, ainda nos vão alimentando a gamela. Se assim não fosse, muito generosamente, não seria de espantar que o distinto júri estivesse a passar o cheque a um qualquer desempregado, como sucedeu recentemente no prémio Leya. Pois, mas esse é de prova cega, e o mundo é dos que dão nas vistas, seja de que maneira for.
       
     

segunda-feira, 9 de julho de 2012

O limpo e o turvo

      A questão Relvas, Bolonha, equivalências, novas oportunidades, é uma questão turva e sempre será turva na medida em que não é limpa.
      Aliás, sempre que há um júri e há uma suposta individualidade pela frente, nunca há limpeza, por mais que digam que ela existe, passem o algodão e ele tem sempre lá qualquer coisinha.
      Efetivamente, situação imaculada só existe uma, a prova cega ou o exame sob anonimato. O resto, escrevam, barafustem, discutam, podem dissertar à vontade, há sempre um se...
      É inquestionável que todos devem ter acesso a novas oportunidades, é inquestionável que os senhores relvas deste país devem ter acesso e condições para o fazer, é claro. Mas nas mesmíssimas condições de exigência que foram dadas aos outros.
      Tem-se confundido aqui conhecimentos, saberes, com frequências. É evidente que há muita gente que não precisa de frequentar a Universidade para nada, antes pelo contrário, a Universidade é que tem muito a aprender com eles. Mas a prova disso não pode ser a olho, nem pelo tino. Tem de haver uma prova, um documento escrito que obrigue suas senhorias a mostrar que realmente são senhorias. E não pode ser por e-mail, tem de ser presencial, corrigido em anonimato, com a nota correspondente e todas as possibilidades de recurso que a lei permite. Um exame até pode ser elaborarado de forma a envolver mais do que uma cadeira.
     No ensino, não há lugar para deputados, nem políticos, nem famosos, só para professores e alunos, conforme a posição em que se encontrem. Quem quer canudos tem a ajoelhar e rezar.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Fé é que nos salva e a seleção macumbeira.

      Eu não acredito em bruxas e bruxedos, mas que se fazem, lá isso fazem. Vem isto a propóstito duma seleção comandada por um macumbeiro que nos quis impor a Nossa Senhora de Caravaggio, quando nós, em questões de nossas senhoras, somos talvez a maior potência do mundo.
    E aquilo foi uma coisa muito beata, com muitas velinhas e latins feitos de cera. A muito custo, a jogar em casa, até conseguimos ir a uma final, jogando numa técnica de tudo a monte e com a basófia de sermos uma das melhores coisinhas que pisavam os relvados. Que a estratégia atingiu os seus fins, não duvido, mas o resultado ficou à vista, Nossa Senhora de Fátima ficou sentida, que nestas coisas de santos, é sempre má política tentar fazer sociedades. 
     Desta vez a coisa foi mesmo muito do republicana e laica. Não consta que entre os jogadores houvesse juras de amor a santinhas brasileiras, nem consta que Roberto Carlos fosse a grande fonte da motivação psicológica dos nossos jogadores. A estratégia era simples: tranquilidade; fartos de ouvir sermões andavam aqueles homens o ano inteiro. Pedia-se-lhes que jogassem à bola como sabiam. E jogaram e a malta até gostou.
     Pois, mas agora a gente continua a pensar, eu não acredito em bruxas, mas que se fazem bruxedos, fazem, ai lá isso fazem. Não custava nada cantar o "treze de maio" antes de cada jogo e a "alegre casinha" após cada vitória. Na verdade, só acredita na sorte quem é crente e, assim, o cu não dá com as calças; ou então, a cara com a careta.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Folhas de 4 páginas.

    Estamos sempre a aprender, principalmente quando determinadas pessoas, quando já não têm nada para dizer, descobrem a palavra inovar.
   Vem isto a propósito das orientações escolásticas com que os professores têm sido bombardeados quando se trata dos exames das nossas criancinhas do 2º ciclo, ou dos rapazinhos e meninas do 3º, nalguns casos até do secundário. Tanto rigor e suspeitas entre os mais novos não deixa de ser caricato comparado com a baldice daquele papelucho, que mais parecia de retrete, que o engº Sócrates mandou ao prof. do ensino dito superior.
      E o rigor é tanto que a criancinha não pode confundir nada, tem de exclarecer tudo, até que a prova que realizou tinha x folhas e y páginas. Não vá o corretor, zásssssssss. aldrabar a coisa toda. E como uma coisa que eu supunha que era um caderno, na medida em que faz uma lombada, ou melhor, duas folhas que formam quatro páginas, eis que passa a ser uma folha de quatro páginas. Aquilo que era um telhadinho de duas águas, passa a ser assim uma espécie de burro de quatro patas.
    Imagino-me com um códice nas mãos e tento perceber como fazia a citação do documento. Do folio 1, teria o fr (folio de rosto) e o fv (folio verso); o problema é o folio 2, que não pode ser folio 2, porque só tenho uma folha. Como fazia então as citações da dita página 3 e 4 se a quisesse citar como folio?
     Qualquer aprendiz de tipógrafo sabe, e mesmo aqueles que o não são já observaram, que um livro tem quatro páginas impressas na mesma folha. Só que nunca ouvi ninguém a dizer que um livro de 600 páginas tem 150 folhas. Se alguém ouviu, agradeço que me corrija esta minha ignorância.

domingo, 17 de junho de 2012

Morrer por morrer, que morra o pai que é mais velho

      Vem isto a propósito das eleições gregas e da nossa situação na lista daqueles que se seguem.
      E falo na primeira pessoa para dizer que há, bem lá no fundo, um certo desejo, ou curiosidade, pelo que acontecerá se a esquerda ganhar. Para ver no que isto dá, morrer por morrer, que morra o pai que é mais velho.
      Se a coisa der para o torto, se houver refugiados nas fronteiras, se houver uma corrida aos bancos, então o Louçã que se cuide que o Zé Pacóvio não cai nessa e o Passos Coelho pode dar mais uns puxões que a malta só geme. Mas se os fulanos que ninguém conhece de lado nenhum fizerem uma limpeza e obrigarem a dita cuja a meter o rabinho entre as pernas (que estas forças de expressão pregam-nos cada partida), então é bom que estes senhores da Lusitânia Pátria, e não só, comecem a pensar em mudar de estratégia.
     Cá para os meus botões, que me estou nas tintas para os comentadores, Louçãs, Jerónimos e associados sindicais vão ganhar uma força considerável. E não sejamos hipócritas, há muita gente fartinha deste centrão, só não muda porque nem o pai morre nem a gente almoça.  

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Espiões

      Agora que anda tudo a espiolhar, que signfica olhar para os espiões; confesso que também estou como muito receio de ser expiado, por outras palavras, que me retirem todos os pecadozitos que tenho escondidos.
     Que estou farto de me expiar a mim próprio, nem seria preciso dizê-lo aqui de forma tão pública; mas que as expiações continuem a correr em catadupa, umas atrás das outras, a gente até tem receio e começa a pensar se não é melhor ir pisando o risco de vez em quando, não vá esta treta expiar, ou melhor, expirar de vez.
     Assim sendo, também tenho o direito a imaginar uma lista guardada num qualquer ficheiro dum espião. Que agora quem não tem uma espiadela não pode considerar-se pessoa importante. E não fica nada mal que um Zé das Expiadelas não queira também, para alimentar o ego, tornar-se em Zé das Espiadelas. Assim a modos de Ricardo Costa ou de Miguel Sousa Tavares, construir um Curriculum Speculatoris (currículo do espião) e poupar algum trabalho aos espiões e ao Orçamento de Estado.
     Poderia inclusive dar algumas pistas como fontes seguras dum currículo de alto nível: membro do sociedade iniciática, com todos os rituais devidamente registados em suporte de papel, batismo, primeira comunhão, crisma e matrimónio; falta a extrema-unção, mas essa aguarda por melhores dias. Membro de três sociedades secretas, a que se acede através dum número e a que só alguns têm acesso, duas delas pertencentes ao deve e ao haver, a terceira só ao deve. Membro de um sem número de confrarias virtuais, onde só é possível entrar com password, algumas delas sediadas no estrangeiro.
      Está lançado o desafio, foi você que pediu um espião?
        
     

domingo, 27 de maio de 2012

O coiso

    O coiso é um daqueles termos que facilmente poderia colocar-se no género neutro. Na verdade, este género desapareceu da nossa Língua, mas ainda mantém alguns restinhos, ou coisos. Dizemos isto, isso, aquilo, sem pretender dizer exatamente se o dito coiso pertence à carne ou ao peixe, se é macho ou fêmea, se é da esquerda ou da direita. Coiso é assim um nem aquece nem arrefece, ou nem come nem sai de cima. O coiso é o morno, o caldinho sem sal que não vai mesmo a lado nenhum. O coiso é neutro, não é vermelho nem azul, é um amarelo às riscas que não sabemos bem para que serve.
    Como diz o Quim Barreiros, mestre da Língua do coiso, "Há quem ponha a mão naquilo, há quem ponha aquilo na mão, aquilo e mais aquilo é a nossa perdição". Com o coiso acontece exatmente o mesmo, há quem não ponha a mão no coiso; há quem já nem ponha o coiso na mão, o coiso e mais o coiso deixam o país na perdição.

terça-feira, 8 de maio de 2012

A/C Manel, Maria, Mariquinhas e Zé das Couves.

Confesso que a questão dos títulos e das formas de cortesia nunca me disseram muito aos ouvidos.
Ao longo da minha vida profissional, já me chamaram de tudo, ele é stôr, professor, aplicador, vigilante, corretor, até uma antiga aluna, funcionária dum banco, no outro dia, simpaticamente, salvo seja, me chamava engenheiro.
Vem isto a propósito duma editora, chamada Leya, que muito legitimamente, na mais pura lei da concorrência, tenta seduzir os potenciais interessados na esolha dos manuais que vão ser adotados nas escolas. Diga-se também, em abono da verdade, com métodos mais claros, muito longe das propagandas médicas, sem brindes de canetas e canetinhas, calculadoras e, Deus me livre de tais pensamentos, sem ofertas de maior valor, que não passem duns fins de semana lá para as varandas dos carqueijais da Serra da Estrela.
Mas também não era preciso arrear a bandeira assim tanto. A modos da gente olhar para as caixas dos livros e ver escrito A/C Manel, A/C Maria, A/C Pais do Amaral? Será assim que lhe enviam a correspondência?
De não ser vaidoso, a ficar sem os galões todos e passar à tropa macaca, convenhamos que é justo que me dê às dores. Escrevam lá qualquer coisinha, que nestas coisas da cagança, até dispenso os títulos académicos, mas um simples Prof. chega-me perfeitamente; ou então, que destas coisas não gosto de dar nada à espanhola, ao menos, em abreviatura, um Ex.mo Sr.

domingo, 22 de abril de 2012

O Caçador de Elefantes

     
      Acho as recentes críticas ao rei Juan Carlos de Espanha muito injustas. Na verdade, só uma ignorância muito grande nestas coisas de sangue a azul é que não permite entender que o gosto pela caça corre-lhes nas veias.
     Não conheço os reis todos, longe disso, mas ocorre-me vagamente que todos eles, mais aqui, ou mais ali, todos tinham por preceito dar a sua caçada e a sua montadela. E diga-se ainda, em abono da verdade, que os reis e demais candidatos também nunca foram de grandes cerimónias quando se trata da caça. A nossa História, naquela parte que melhor conheço, está recheada de referências às caçadas dos nossos reis na famosa corte de Salvaterra, lá para os lados de Santarém. Ele eram tordos e codornizes, coelhos e perdizes, veados e javalis, e outras bicharadas munidas ou não de cornos. E não duvido que os nossos monarcas, se acaso também tivessem pisado as terras africanas, não pensariam duas vezes antes de mandar um tirinho na primeira tromba que lhes aparecesse pela frente.
Concluindo, e sendo a monarquia uma instituição que muito procura conservar as tradições que os nossos antepassados nos legaram, é como querer um jardim sem flores exigir que os reis, ou eventuais candidatos a reis, fiquem proibidos de dar ao gatilho. Muito sinceramente, acho de devemos deixar os indivíduos estoirar à vontade, com um bocadinho de compreensão de ambas as partes, até que bem podiam estoirar para o ar e com pólvora seca.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Os limites da democracia e da justiça

Sempre estive convencido de que Democracia e Justiça formam uma só palavra. A grande dúvida está em saber até podem ir os limites da ambas. E, muito sinceramente, o triste espetáculo que a Noruega está a dar no julgamento dum indíviduo, de que nem tão pouco fixei o nome, deveria dar espaço para uma ampla reflexão acerca dos limites da Democracia e da Justiça.
Mas parece não haver vontade em fazê-lo. Quem sou eu para o explicar, mas nada impede, em nome dessa mesma democracia, que possa expor aquilo que penso. Mesmo que isso, futuramente, me pudesse impedir de aceder a cargos que o mesmo regime democrático me impusesse, como por exemplo, jurado num tribunal.
Então, na minha modesta opinião, a democracia deveria ter os seus limites no momento em que determinados cidadãos sobrevivem à custa da democracia e da justiça. Só assim consigo entender que um tribunal não encontre meios para proibir que um monstro, um atrasado mental, um extremista, o que queiram chamar, continue a causa os maiores danos que se podem imaginar nos familiares de 70 vítimas.
Quando já não há leis que consigam proibir que isto aconteça, então o regime democrático e a justiça já não pertencem ao povo, mas às universidades, às ordens, às associações e às disciplinas de voto dos parlamentos.

terça-feira, 10 de abril de 2012

"Àquele a quem muito se deu, muito será pedido"

      Acho que a citação do Evagelho de Lucas 12,48 encaixa que nem uma luva ao senhor Dr. Mário Soares.
     Passo à exegese: "Àquele a quem muito se deu". Na verdade, até prova em contrário, ainda não sei muito bem o que o dito senhor me deu, mas sei com toda a certeza aquilo que lhe estou a dar. Vejamos, carro, motorista, quase de certeza combustível, ah!!!! já me esquecia, se calhar portagens e, pasme-se, pago-lhe as multas. Que quer o nosso ex-presidente que lhe pague mais, a biquinha na estação de serviço ou uma mijinha se o urinol também for a pagar?
     Já não há paciência depois de esgotados os direitos adquiridos!!! E passo à exegese de Lc. 12, 48, "muito será pedido."  E creia-me, senhor doutor Mário Soares, que vou ser muito comedido nos meus pedidos para tão beliscar os sacossantos direitos estabelecidos nas leis, que o senhor e os seus amigos fizeram para se recompensarem. Muito sinceramente, penso no seu motorista, o mexilhão que mais uma vez ficou entalado, com a carta apreendida. Aceitemos, deveria ter desobedecido a Vossa Excelência; e vá que não vá, pague a multa o zé pacóvio que não vai ficar mais pobre por causa disso. Agora, pergunto, muito será pedido se Vossa Ilustre Senhoria ficar sem motorista e sem automóvel do estado durante o tempo da apreensão da carta?
     Julgo que não e, aqui para nós, talvez dê para pagar a multa ou mais qualquer coisinha para ajudar o zé pacóvio a pagar a crise.

sábado, 7 de abril de 2012

As artes do não-poder. Cartas de Viera um paradigma da retórica epistolar do barroco


PREÂMBULO

O aturado trabalho de investigação conduzido por Carlos Maduro, no horizonte do epistolário de António Vieira, expressa uma contribuição decisiva para a atualização do estado da questão, com vista a uma futura edição crítica das Cartas do grande jesuíta.
Partindo do meritório esforço de João Lúcio de Azevedo, que entre 1925 e 1928 publicou três grossos tomos com 710 cartas de Vieira, naquela que é, até agora, a edição mais exustiva do longo epistolário de Vieira, Carlos Maduro alarga muito o âmbito da investigação, tendo por base não só a bibliografia publicada depois dessa data, permitindo-lhe identificar mais setenta e cinco cartas não incluídas na edição de Lúcio de Azevedo, como também por via da investigação nos fundos das nossas bibliotecas, que lhe deram o conhecimento minucioso desta face tão cativante da vida e obra de Vieira.
Nesta conformidade, o estudo de Carlos Maduro é o que até ao momento parte de uma base mais alargada do epistolário vieirino e o que, como tal, nos permite aceder a uma perspetiva mais completa das Cartas, oferecendo-nos não apenas a novidade da sua interpretação no âmbito da prática discursiva e da teoria epistolar do barroco, como também um mais pormenorizado e completo conhecimento do corpus textual.
Tratando-se de uma tese de doutoramento, não será de estranhar que as exigências do método o obriguem a uma dilucidação da tradição epistolar na cultura ocidental, de que Vieira foi por essa via parte ativa, situando a análise não tanto na perspetiva mais tradicional e comum de fonte documental para reconstrução da biografia de Vieira ou como elemento auxiliar para o estudo da sua produção literária. Surgem por isso as cartas estudadas como «paradigma da retórica epistolar do barroco», atendendo, por isso, às tão ricas como complexas questões da arte retórica, atinentes à inventio, exordio,  dispositio, lugares, narração , estilos e fins.
Mas para lá destes aspetos mais técnicos da análise da epistolografia de António Vieira, é também através dela que nos deparamos com a dimensão do seu autor como homem do mundo, com o seu cosmopolitismo, a sua rede de relações corporizada num rico e influente universo de destinatários, a riqueza intelectual manifestada nas fontes da inventio, a que acresce o interessante capítulo dedicado à dilucidação e interpretação das metáforas utilizadas por Vieira na sua escrita, traduzindo a peculiar experiência de homo viator, tantas vezes retirada da vivência da viagem marítima, da tempestada e do confronto com a «natureza dificultussíssima».
Por outro lado, a interpretação e análise das Cartas que aqui nos é dada permite também ao leitor o estabelecimento de interessantes pontos de contacto com o pensamento de Vieira e com os temas mais candentes da sua vasta obra, expressos também nos Sermões e obras proféticas. Aqui nos deparamos com o Vieira político e diplomata, seduzido com os jogos da diplomacia europeia e com a estratégia das guerras intestinas que assolavam a Europa, «sem cabeça nem união»; com o Vieira perseguido pelo Tribunal do Santo Ofício, o qual, como dizia, sendo santo pelo nome não assegurava a santidade nem a ciência aos seus juízes; pelas Cartas vemos também a sua conceção do mundo como teatro e da vida como comédia, no qual havia que representar um papel digno, com a arte e o engenho para lidar com a suspensão e a expectação; é também o Vieira seduzido pelo imaginário barroco e pelo maravilhoso cristão, tão afeito à interpretação de prodígios e presságios astrológicos, nomeadamente os que se articulavam com a interpretação do significado astrológico dos cometas, a que tanto se dedicou, sem, enfim, esquecer o Vieira visionário, o Vieira humanista, defensor da dignidade dos povos descobertos e escravizados sem título legítimo e em guerra injusta, pois que em matérias tão relavantes como as da soberania e da liberdade, colocava no mesmo plano a coroa de ouro e a coroa de penas, e como finalidade principal do império a evangelização e o ius praedicandi.